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A saúde mental é uma questão de saúde pública?

Writer: Staff
Staff
Sep 8
6 min read
Mãe sorridente abraçando o filho adolescente, ambos usando camisetas em tom coral, sobre fundo claro e neutro.

Por que a depressão na adolescência exige uma resposta coletiva


No artigo anterior, vimos como O Filho, de Florian Zeller, retrata uma família que ama, tenta ajudar, mas não consegue compreender a profundidade do sofrimento de um adolescente. Essa dificuldade não existe apenas na ficção, mas também, cada vez com mais frequência, na vida real. Por isso perguntamos: a saúde mental é uma questão de saúde pública?


Quem nunca viveu uma depressão pode não entender e, às vezes, nem acreditar na dimensão dessa dor. O próprio jovem talvez não consiga explicar o que sente. O sofrimento aparece, então, por meio do isolamento, da irritação, das faltas na escola, da queda no rendimento ou de mudanças de comportamento que facilmente são confundidas com preguiça, rebeldia ou falta de responsabilidade.


Mas, quando tantos jovens enfrentam esse problema e suas consequências atingem famílias, escolas e comunidades inteiras, ainda podemos considerá-lo uma questão exclusivamente particular?


Afinal, saúde mental é uma questão de saúde pública?


Sim. Um problema passa a ser considerado de saúde pública quando afeta uma parcela significativa da população, provoca adoecimento, incapacidade ou mortes e exige ações organizadas de prevenção, atendimento e acompanhamento.


De acordo com a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente um em cada sete adolescentes entre 10 e 19 anos vive com algum transtorno mental. A depressão e a ansiedade estão entre as principais causas de adoecimento e incapacidade nessa fase da vida.


Quando olhamos para as causas de morte entre adolescentes, a dimensão do problema torna-se ainda mais difícil de ignorar. No Brasil, a mortalidade de jovens tem sido historicamente marcada por causas externas, especialmente por violência e acidentes. O que chama atenção, no entanto, é o espaço que o suicídio passou a ocupar nesse cenário. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde mostram que, em 2021, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre adolescentes brasileiros de 15 a 19 anos.


Essa realidade se torna ainda mais relevante quando observada ao longo do tempo. Nas últimas duas décadas, o Brasil avançou na construção de políticas, campanhas e estratégias de prevenção para diferentes causas de morte entre crianças e adolescentes. Acidentes de trânsito, violência, doenças transmissíveis e outros problemas que colocam jovens em risco passaram a ser tratados não apenas como tragédias individuais, mas como questões que exigem respostas organizadas do poder público e da sociedade.


É justamente essa comparação que ajuda a entender por que a saúde mental também precisa ser tratada como uma questão de saúde pública. Quando adolescentes morrem no trânsito, não esperamos que cada família resolva o problema sozinha. Criamos leis, campanhas educativas, fiscalização e políticas de prevenção. Quando uma doença ameaça uma parcela significativa da população, organizamos campanhas de informação, ampliamos o diagnóstico e estruturamos redes de atendimento.


Por que deveria ser diferente quando falamos de sofrimento psíquico? Os números não transformam cada tristeza em doença, nem significam que todo adolescente isolado esteja deprimido. Também não permitem atribuir todo suicídio a um transtorno mental específico. Eles mostram, porém, que estamos diante de um problema amplo demais para depender apenas da capacidade de cada família de perceber que algo está errado e de conseguir, sozinha, encontrar ajuda.


Se um problema atinge aproximadamente um em cada sete adolescentes e o suicídio aparece entre as principais causas de morte nessa fase da vida, sua prevenção exige uma resposta organizada. Famílias precisam estar dispostas a escutar, escolas precisam estar preparadas para reconhecer sinais de sofrimento, profissionais de saúde precisam estar acessíveis e políticas públicas precisam garantir prevenção, atendimento e acompanhamento. A família é fundamental, mas não pode carregar essa responsabilidade sozinha.


Por que a depressão pode ser difícil de reconhecer em adolescentes?


A depressão nem sempre se manifesta como tristeza evidente. Em adolescentes, ela pode se manifestar como irritação, afastamento dos amigos, alterações no sono, perda de interesse, dificuldade de concentração, queda no desempenho escolar ou comportamentos de risco.


Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma um diagnóstico. A avaliação deve ser feita por um profissional qualificado. O problema é que, antes de existir qualquer avaliação, o jovem pode passar meses sendo chamado de preguiçoso, dramático, difícil ou “enrolado”.

Esses rótulos tornam a situação ainda mais solitária. Além de não saber explicar o próprio sofrimento, o adolescente começa a acreditar que não será ouvido ou que o que sente é apenas uma falha de caráter.


Por que a família não consegue resolver tudo sozinha?


A presença da família é fundamental, mas o amor e a atenção nem sempre são suficientes. Pais e responsáveis podem não reconhecer os sinais, não saber como conversar ou enfrentar dificuldades para acessar atendimento psicológico e psiquiátrico.


Responsabilizar exclusivamente as famílias também ignora importantes diferenças sociais. Algumas pessoas conseguem procurar rapidamente um especialista; outras enfrentam falta de profissionais, custos elevados, longas esperas, distância dos serviços ou medo do julgamento.


A saúde pública existe justamente porque o acesso ao cuidado não pode depender apenas da renda, da informação ou da sorte de cada família.


Qual é o papel das escolas?


A escola costuma ser um dos primeiros lugares em que as mudanças de comportamento se tornam visíveis. Professores e funcionários podem perceber faltas frequentes, isolamento, queda repentina nas notas ou alterações na forma como o estudante se relaciona.

Isso não significa transformar professores em psicólogos. Significa prepará-los para reconhecer possíveis sinais de sofrimento, acolher sem julgamento e saber para onde encaminhar o aluno.


Também são necessários políticas de prevenção ao bullying, protocolos para situações de crise, canais seguros de escuta e uma comunicação responsável com as famílias. A escola não substitui o tratamento, mas pode ajudar a interromper o caminho entre o sofrimento silencioso e uma situação extrema.


O que cabe aos serviços de saúde e ao poder público?


Uma resposta pública precisa integrar prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento. Isso envolve fortalecer a atenção básica, ampliar o acesso aos serviços especializados e conectar escolas, unidades de saúde, a assistência social e as famílias.


No SUS, o cuidado pode começar nas Unidades Básicas de Saúde e, quando necessário, continuar nos serviços da Rede de Atenção Psicossocial, como os CAPS e os CAPSi, voltados ao atendimento de crianças e adolescentes. O Ministério da Saúde apresenta esses serviços como partes de uma rede que deve oferecer cuidado contínuo e integrado.


Também é responsabilidade do poder público produzir dados, formar profissionais, combater o estigma e garantir que pedir ajuda não seja um privilégio.


Falar sobre depressão e suicídio é perigoso?


O silêncio não protege. Uma conversa conduzida com responsabilidade pode abrir caminho para que o jovem peça ajuda.


Isso significa escutar sem minimizar, evitar julgamentos e não responder automaticamente com frases como “você tem tudo”, “isso vai passar” ou “é só uma fase”. Mesmo quando ditas com boa intenção, elas podem intensificar a sensação de que ninguém compreende o que está acontecendo.


Quando houver preocupação, perguntar de maneira direta e cuidadosa sobre a segurança do adolescente não deve ser tratado como um tabu. O mais importante é levar a resposta a sério e procurar apoio profissional.


Uma responsabilidade compartilhada


Reconhecer a saúde mental como uma questão de saúde pública não retira a importância da família. Ao contrário: impede que mães, pais e responsáveis sejam deixados sozinhos diante de um problema para o qual talvez não tenham informação, recursos ou apoio.


Enfrentar esse problema exige responsabilidade de toda a sociedade. As famílias precisam estar dispostas a escutar e reconhecer sinais de sofrimento, enquanto as escolas devem estar preparadas para identificar mudanças de comportamento e oferecer o suporte adequado. Ao mesmo tempo, é fundamental garantir acesso a profissionais de saúde qualificados e contar com políticas públicas capazes de acolher crianças, adolescentes e suas famílias. Mas também há uma mudança cultural necessária: precisamos deixar de tratar o sofrimento emocional como preguiça, fraqueza, drama ou falta de caráter.


O Filho nos mostra que amar alguém não significa, necessariamente, compreender tudo o que essa pessoa está vivendo. Às vezes, o amor também precisa de orientação, tratamento e de uma rede capaz de agir antes que seja tarde.


Saúde mental não é apenas uma questão particular, pois suas causas, barreiras e consequências não são exclusivamente individuais. Quando tantos jovens adoecem em silêncio, cuidar deles deixa de ser responsabilidade de uma única família e torna-se compromisso de todos.


Onde procurar ajuda


No Brasil, é possível buscar atendimento em uma Unidade Básica de Saúde, em um CAPS ou CAPSi e nos demais serviços da Rede de Atenção Psicossocial.


O CVV oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em caso de risco imediato, não deixe a pessoa sozinha e procure um serviço de urgência, uma UPA ou um hospital, ou ligue para o SAMU pelo 192. Consulte também as orientações do Ministério da Saúde.

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