“O Filho”: uma peça dolorosa, necessária e impossível de esquecer

Updated: Sep 9

Com Gabriel Braga Nunes e Andreas Trotta em atuações intensas, a montagem brasileira de “O Filho” transforma a depressão na adolescência em uma história sobre amor, culpa e a dificuldade de enxergar o sofrimento de quem está ao nosso lado.
Há peças que terminam quando as luzes se acendem. O Filho não é uma delas.
O espetáculo continua com você na saída do teatro, no caminho de casa e, principalmente, quando pensa em todas as vezes em que alguém próximo disse que não estava bem e talvez ninguém tenha compreendido a gravidade daquela frase.
Escrita pelo dramaturgo francês Florian Zeller, O Filho acompanha Nicolas, um adolescente de 16 anos que enfrenta um quadro de depressão. Filho de pais separados, ele decide deixar a casa da mãe e ir morar com o pai, na esperança de que a mudança o ajude a recuperar alguma estabilidade.
Mas a peça não oferece explicações simples. Não existe um único acontecimento que justifique tudo, uma pessoa claramente culpada ou uma solução capaz de organizar aquele sofrimento. E é justamente aí que o texto se torna tão verdadeiro.
Um pai que ama, mas não consegue compreender
Gabriel Braga Nunes arrasa na interpretação do papel do pai de Nicolas. Seu personagem ama o filho e quer ajudá-lo. Isso nunca está em dúvida. Entretanto, ele tenta compreender a depressão sob uma lógica adulta: é preciso voltar à escola, fazer planos, criar uma rotina, reagir e seguir em frente.
Em vários momentos, acredita estar dizendo exatamente o que um bom pai deveria dizer. Tenta oferecer soluções, estabelecer limites e devolver ao filho certa normalidade. O problema é que Nicolas não precisa apenas de soluções. Ele precisa ser verdadeiramente visto.
Gabriel Braga Nunes constrói esse pai sem transformá-lo em um vilão. Ele é um homem dividido entre o amor, a culpa, a impaciência, o medo e uma enorme sensação de impotência. Quer acreditar que pode resolver o problema porque admitir que talvez não consiga é assustador demais.
Essa contradição aparece nos pequenos gestos, nas pausas e nas mudanças de tom. O ator não precisa exagerar para revelar o desespero de um pai que, aos poucos, percebe que o amor pelos filhos não nos torna automaticamente capazes de compreender tudo o que eles sentem.
Andreas Trotta carrega um papel extremamente desafiador
Andreas Trotta, no papel de Nicolas, assume uma responsabilidade enorme ao interpretar um adolescente com depressão, o que exige delicadeza em qualquer linguagem, mas o desafio se torna ainda maior no teatro. Não há proteção da câmera, da edição ou dos enquadramentos fechados. O ator precisa sustentar, em tempo real, a fragilidade, o silêncio, a irritação e as contradições do personagem diante da plateia.
Trotta consegue transmitir a sensação de um jovem fisicamente presente, mas que parece se afastar cada vez mais de tudo ao seu redor. Nicolas deseja ser compreendido, mas nem sempre consegue explicar o que sente. Em alguns momentos, pede ajuda. Em outros, rejeita justamente aqueles que tentam se aproximar.
Não é uma interpretação construída para provocar pena. É mais incômoda e complexa do que isso. Nicolas pode ser carinhoso, agressivo, convincente, confuso e até manipulador. A peça não tenta transformar a depressão em uma imagem bonita ou facilmente identificável.
Andreas Trotta sustenta todas essas camadas sem perder a humanidade do personagem. É uma atuação corajosa, principalmente porque se recusa a explicar Nicolas por completo.
Uma montagem que deixa o texto e os atores respirarem
A versão brasileira tem direção de Léo Stefanini e tradução de Carolina Gonzales. A produção marca o segundo encontro do diretor com a obra de Zeller, depois da montagem de O Pai, assistida por mais de 120 mil pessoas no Brasil. A peça já foi montada em mais de 20 países e também ganhou uma adaptação para o cinema.
A montagem de O Filho é precisa. As transições são excelentes e mantêm a história em movimento sem quebrar a tensão emocional. Cenário, luz e trilha trabalham a favor do texto, mas nenhum elemento tenta competir com os atores.
Tudo parece ter sido pensado para colocar a interpretação no centro da experiência. Essa escolha é especialmente acertada porque o verdadeiro conflito da peça não depende de grandes acontecimentos externos. Ele está nas conversas interrompidas, nas perguntas sem resposta, nas tentativas frustradas de aproximação e na distância que pode existir até mesmo dentro de uma família que se ama.
A direção confia no silêncio. Confia no desconforto. E confia na capacidade da plateia de perceber o que os personagens ainda não conseguem dizer.
Quando o amor não basta
Talvez a pergunta mais dolorosa de O Filho seja esta: o que acontece quando uma família ama profundamente um adolescente, tenta ajudá-lo e, mesmo assim, não consegue alcançá-lo?
O espetáculo mostra como pais e mães podem confundir melhora com obediência. Se o filho voltou para a escola, sorriu no jantar ou prometeu que está tudo bem, surge a vontade desesperada de acreditar que o pior já passou.
Também revela como o sofrimento de um adolescente pode ser interpretado como preguiça, rebeldia, chantagem, ingratidão ou falta de vontade. Nem sempre por crueldade, mas porque aceitar a existência de uma dor tão profunda exige que os adultos reconheçam seus próprios limites.
A peça não diz que o amor é irrelevante. Pelo contrário: todos amam Nicolas. Mas demonstra que amor, sozinho, não substitui escuta, atenção, acompanhamento profissional e disposição para admitir que a situação pode ser mais séria do que gostaríamos.
Uma história sobre o filho — e também sobre os pais
Embora Nicolas esteja no centro da trama, O Filho fala igualmente sobre os adultos que o cercam.
A separação dos pais, a nova família do pai, as culpas acumuladas e as expectativas depositadas sobre aquele adolescente atravessam a história. A peça não estabelece uma relação simplista de causa e consequência, mas mostra que a saúde mental de um jovem não existe isolada do ambiente familiar.
Os adultos querem saber onde erraram. Procuram uma decisão, uma ausência ou um acontecimento capaz de explicar tudo. Essa busca é compreensível, mas também pode impedir que escutem o que está acontecendo no presente. Enquanto todos procuram uma resposta, Nicolas continua sofrendo.

Por que assistir a “O Filho”
O Filho é uma adaptação maravilhosa, com uma montagem segura, transições muito bem executadas e atuações que carregam a história sem artifícios desnecessários.
Gabriel Braga Nunes entrega uma das interpretações mais fortes do espetáculo ao mostrar um pai amoroso que tenta agir corretamente, mas nem sempre consegue enxergar o que está diante dele. Andreas Trotta assume um papel extremamente difícil e dá a Nicolas vulnerabilidade, raiva, confusão e uma solidão que atravessa a plateia.
Não é uma peça leve. Também não deveria ser.
É uma obra necessária para pais, mães, educadores e para qualquer pessoa que conviva com adolescentes. Não porque ensine uma fórmula para lidar com a depressão, mas porque nos obriga a fazer perguntas que muitas famílias evitam até que seja tarde demais.
Estamos realmente escutando nossos filhos? Sabemos distinguir uma fase difícil de um sofrimento que precisa de ajuda? E o que fazemos quando eles não conseguem explicar o que sentem?
O Filho não entrega respostas confortáveis. Entrega algo talvez mais importante: a urgência de olhar novamente.
Este artigo faz parte do especial da Santa Mulher sobre “O Filho”, família e saúde mental na adolescência. Leia também:
O Filho: as diferenças entre a peça e o filme com Hugh Jackman
Depressão na adolescência: os sinais que os pais não devem ignorar
Quando o amor dos pais não basta: como buscar ajuda para um adolescente
Como conversar com um filho que diz não encontrar mais sentido na vida
Importante: este texto aborda a depressão e o sofrimento emocional na adolescência. Se um jovem mencionar desejo de morrer, automutilação ou falta de vontade de continuar vivendo, a fala deve ser levada a sério e receber ajuda profissional imediata.
Ficha técnica — O Filho
Texto: Florian Zeller, membro da Academia Francesa
Tradução: Carolina Gonzales
Direção: Léo Stefanin
Elenco da temporada no Rio de Janeiro: Maria Flor, Gabriel Braga Nunes, Bruna Miglioranza, Andreas Trotta, Marcio Marinello e Luciano Schwab
Direção de produção: Thiago Wenzler
Trilha sonora original: Sérvulo Augusto
Desenho de luz: Cesar Pivetti
Figurinos: Yakini Rodrigues
Fotografia: Ronaldo Gutierrez
Produção: Foco 3
Duração: 65 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Nas apresentações de domingo da temporada carioca, Maria Ribeiro assume o papel interpretado por Maria Flor nas demais sessões.
Agenda de O Filho
Rio de Janeiro — temporada atual
Até 13 de setembro de 2026
Endereço: Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 261, Copacabana, Rio de Janeiro
Sessões: quinta a sábado, às 20h; domingo, às 18h
Classificação: 16 anos
Duração: 65 minutos
São Paulo — próxima temporada
De 10 de outubro a 8 de novembro de 2026
Local: Teatro Fernando Torres
Endereço: Rua Padre Estevão Pernet, 588, Tatuapé, São Paulo
Sessões: sábados, às 20h; domingos, às 18h
Elenco anunciado: Maria Ribeiro, Gabriel Braga Nunes, Bruna Miglioranza, Andreas Trotta, Marcio Marinello e Luciano Schwab
Classificação: 16 anos
Duração: 65 minutos
Ingressos e informações atualizadas estão disponíveis no site do Teatro Fernando Torres.
Datas, horários, elenco e valores podem sofrer alterações. Consulte o canal oficial do teatro antes de comprar.


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