Quando o amor dos pais não basta: como buscar ajuda para um adolescente


Você pode amar seu filho profundamente, conversar com ele, estar presente, conhecer seus amigos, acompanhar a escola e fazer tudo o que acredita que uma boa mãe ou um bom pai deveria fazer. E, ainda assim, chega um momento em que nada disso parece suficiente.
Talvez essa seja uma das constatações mais difíceis para quem vê um filho adolescente enfrentando depressão, ansiedade, automutilação ou outro sofrimento emocional: há situações em que o amor, a presença e uma boa estrutura familiar não bastam.
Não porque tenham deixado de ser importantes. Muito pelo contrário. Ter uma família que acolhe pode fazer uma enorme diferença durante o tratamento. Mas algumas situações exigem conhecimento e acompanhamento profissional.
Nós aceitamos isso com muito mais facilidade quando o problema está no corpo. Se um filho quebra o braço, ninguém espera que o amor da mãe faça o osso voltar ao lugar. Se houver uma alteração hormonal, procuramos um endocrinologista. Se alguma coisa não parece certa, fazemos exames.
Com a saúde mental, porém, ainda tentamos resolver muita coisa em casa.
Conversamos mais. Mudamos a rotina. Tiramos o celular. Colocamos no esporte. Tentamos ser mais ou menos firmes. Damos espaço. Depois achamos que demos espaço demais. E, no meio disso tudo, podemos demorar a perceber que talvez seja hora de procurar alguém que saiba avaliar o que está acontecendo.
Saúde mental também é saúde.
Quando procurar ajuda profissional para um adolescente?
Não é necessário esperar uma crise. Se alguma coisa parece diferente há semanas ou se mudanças de comportamento começam a interferir na escola, nas amizades, no sono, na alimentação, nos cuidados pessoais ou na convivência familiar, já há motivo para conversar com um profissional.
O primeiro contato pode ser com o pediatra ou com o médico que acompanha o adolescente. Um profissional que já conhece seu histórico também pode ajudar a avaliar o que mudou e orientar os próximos passos.
Dependendo da situação, psicólogo e psiquiatra da infância e adolescência podem fazer parte do cuidado. E procurar um psiquiatra não significa, automaticamente, que seu filho será medicado. Significa procurar um médico especializado em saúde mental para avaliar o que está acontecendo e, com a família, discutir as possibilidades de tratamento.
O mais importante é não esperar que a situação se torne insustentável para pedir ajuda.
“Mas ele não quer ir ao psicólogo”
Essa pode ser outra barreira. Adolescentes podem recusar terapia, dizer que não precisam de ajuda ou simplesmente não querer conversar com um desconhecido sobre o que estão sentindo.
Isso não significa que os pais devam desistir. Talvez seja necessário procurar outro profissional até encontrar alguém com quem o adolescente consiga estabelecer confiança. Talvez o primeiro passo seja uma conversa com o pediatra. Em alguns casos, os próprios pais podem buscar orientação profissional inicialmente para entender como abordar o filho.
O tratamento depende da participação do adolescente, mas os adultos continuam responsáveis por agir quando percebem que ele não está bem. Especialmente quando existe risco.
Se ele falar em morrer, não minimize
Aqui não há espaço para “é só para chamar atenção”. Se um adolescente disser que quer morrer, que gostaria de desaparecer, que a família estaria melhor sem ele ou fizer qualquer referência preocupante ao suicídio, leve a sério.
Também preste atenção a comportamentos de automutilação, despedidas incomuns, mensagens sobre morte, desesperança intensa ou mudanças bruscas de comportamento.
E não tenha medo de perguntar diretamente se ele está pensando em se matar.
Existe um receio comum de que fazer essa pergunta possa fazer a ideia entrar na cabeça do adolescente. Não é assim. Perguntar diretamente pode, na verdade, abrir a oportunidade para que ele fale sobre algo que estava escondendo.
Se houver risco imediato, tentativa de suicídio, um plano para se machucar ou qualquer situação em que você acredite que seu filho não está seguro, não o deixe sozinho e procure atendimento de emergência.
Não tenho plano de saúde. E agora?
Esse medo também não pode impedir uma família de procurar ajuda. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento em saúde mental, inclusive para crianças e adolescentes. O caminho pode variar de acordo com a cidade e a gravidade da situação, mas há algumas portas de entrada que os pais precisam conhecer.
Como buscar atendimento para um adolescente pelo SUS
Uma das primeiras opções é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS), Clínica da Família ou posto de saúde responsável pela região onde a família mora.
Não é necessário chegar sabendo exatamente de qual profissional seu filho precisa. Explique o que está acontecendo: há quanto tempo o comportamento mudou, quais sinais você percebeu, se houve queda no rendimento escolar, isolamento, alterações no sono ou na alimentação, automutilação, falas relacionadas à morte ou qualquer outra mudança importante.
A equipe pode realizar um acolhimento inicial e, quando necessário, encaminhar o adolescente a outros pontos da rede de saúde mental. Entre eles estão os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Para crianças e adolescentes, existem os CAPSi — Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil, voltados ao atendimento de crianças e adolescentes que apresentam sofrimento psíquico intenso e de outras situações que necessitam de acompanhamento especializado.
Em muitos lugares, os CAPS oferecem atendimento de porta aberta, o que permite procurar diretamente o serviço para um primeiro acolhimento. A organização, entretanto, pode variar de um município para outro.
Se você não souber onde fica o serviço adequado, procure a unidade de atenção básica da sua região ou entre em contato com o Disque Saúde 136, do Ministério da Saúde, para obter orientação.
Se possível, leve o documento de identificação do adolescente, o CPF e o Cartão Nacional de Saúde (Cartão SUS). Em uma situação de urgência, porém, a ausência do cartão não deve ser motivo para deixar de procurar atendimento.
E se for uma emergência?
Essa distinção é fundamental. Se houver tentativa de suicídio, risco imediato de suicídio, automutilação grave, intoxicação ou qualquer situação em que o adolescente não possa ser mantido em segurança, não espere pela próxima consulta com o psicólogo, pela vaga no posto ou por um encaminhamento.
Procure uma UPA, pronto-socorro ou outro serviço de emergência.
O SAMU atende pelo número 192.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia. O CVV é uma importante rede de apoio, mas não substitui atendimento médico ou psiquiátrico em caso de emergência.
O tratamento não termina na porta do consultório
Encontrar um profissional é um passo enorme, mas dificilmente será o único. Dependendo da situação, cuidar da saúde mental de um adolescente pode envolver psicoterapia, acompanhamento médico, mudanças na rotina, sono, atividade física, acompanhamento escolar, participação da família e, em determinados casos, medicação prescrita e acompanhada por um médico.
Também pode levar tempo. Nem sempre o primeiro psicólogo será o profissional certo. Nem sempre a primeira estratégia funcionará. Pode haver períodos melhores e outros mais difíceis.
É justamente aí que o papel dos pais continua sendo fundamental.
O amor talvez não seja o tratamento, mas pode ser aquilo que ajuda um adolescente a permanecer nele.
Talvez a gente também precise cuidar das mães
Existe outro lado dessa história sobre o qual quase ninguém fala: o impacto do sofrimento de um filho na saúde emocional de toda a família, especialmente de quem está mais diretamente envolvido nos cuidados.
É a mãe que passa a noite verificando se o filho está bem, que dorme com a porta aberta, que sente o coração disparar ao ver o número da escola no telefone e que, depois de uma consulta difícil, precisa trabalhar e continuar a rotina como se tudo estivesse normal.
É também a mãe que começa a se perguntar onde errou. Que repassa mentalmente os últimos anos procurando algum sinal que não percebeu, alguma conversa que deveria ter tido, alguma coisa que poderia ter feito diferente. Aos poucos, passa a prestar atenção em cada silêncio, em cada porta fechada e em cada mudança de humor.
Quando um adolescente adoece emocionalmente, a família inteira muitas vezes passa a viver em estado de alerta.
Por isso, quem cuida também pode precisar de apoio. Há situações em que os próprios pais se beneficiam de acompanhamento psicológico ou de orientação profissional para aprender a lidar com a nova realidade da família.
Cuidar de quem cuida também faz parte dessa história.
Não precisamos esperar pela emergência
Talvez esse seja o ponto mais importante: a saúde mental dos adolescentes não pode virar assunto apenas depois de uma tentativa de suicídio ou quando uma família chega a uma situação extrema.
Precisamos agir antes: quando começam as mudanças de comportamento, as faltas na escola, o isolamento, a irritabilidade, as alterações no sono e aquela sensação difícil de explicar de que algo não está certo.
E precisamos falar sobre isso nas escolas, nos consultórios e nas famílias. Precisamos também falar entre mães e pais, sem expor a intimidade dos nossos filhos, mas reconhecendo que muitas famílias enfrentam situações semelhantes em silêncio.
Hoje, essa atenção também precisa chegar ao que acontece dentro do celular que nossos filhos carregam para o quarto. Não basta saber quantas horas se passam nas redes sociais. É importante entender, na medida do possível e respeitando sua privacidade, o que está consumindo, com quem está conversando e se aquelas comunidades estão ajudando o adolescente a buscar apoio ou reforçando sentimentos de desesperança e comportamentos que podem colocá-lo em risco.
Isso não significa transformar toda a tristeza, frustração ou dificuldade próprias da adolescência em doença. Adolescentes sofrem, terminam namoros, brigam com amigos, odeiam a escola em alguns dias, batem portas e passam por fases difíceis.
Às vezes, é realmente adolescência.
Às vezes, não é.
E talvez uma das coisas mais importantes que podemos fazer como pais seja aceitar que não precisamos saber distinguir isso sozinhos.
Amar também é perceber quando chegou a hora de pedir ajuda.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica, psicológica ou psiquiátrica. Em caso de risco imediato de suicídio ou autoagressão, procure atendimento de emergência. No Brasil, o SAMU atende pelo 192 e o CVV oferece apoio emocional pelo 188.




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