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Uso excessivo da inteligência artificial pode provocar “brain fry” no trabalho, alerta pesquisa

Writer: Staff
Staff
Sep 22
5 min read
Robotic hand typing on a laptop as a blurred human hand works nearby in a bright office setting.


Delegar constantemente o pensamento à IA pode reduzir o exercício da memória, da reflexão e da criatividade


Amiga, provavelmente você já pediu para a inteligência artificial escrever um e-mail, resumir um documento ou organizar uma ideia meio confusa. E tudo bem, a tecnologia pode economizar tempo e facilitar bastante a rotina.


Mas existe uma pergunta que começa a preocupar pesquisadores, o que acontece quando a inteligência artificial deixa de ser uma ferramenta de apoio e passa a pensar quase tudo por nós?


O uso constante de respostas prontas pode reduzir o esforço que fazemos para analisar informações, construir argumentos, recordar conhecimentos e encontrar soluções próprias.


Esse fenômeno vem sendo chamado informalmente de “brain fry”. A expressão não constitui um diagnóstico médico. Ela descreve o possível esgotamento ou enfraquecimento mental associado à terceirização contínua do pensamento.


A inteligência artificial está ajudando você a pensar ou está pensando por você?


Em uma pesquisa desenvolvida na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), o doutor em engenharia organizacional Rodrigo de Barros defende que a criatividade e a inovação dependem do exercício contínuo das capacidades humanas.


Aprender, refletir, comparar informações e estabelecer relações entre diferentes conhecimentos fazem parte do processo criativo. “Quando esses processos deixam de ser exercitados, existe o risco de empobrecimento cognitivo, reduzindo justamente as competências que diferenciam pessoas das máquinas”, afirma o pesquisador.


Isso não significa que a inteligência artificial seja uma inimiga. Muito pelo contrário, o avanço é extraordinário e pode ajudar profissionais de praticamente todas as áreas.


O problema ocorre quando a facilidade se transforma em dependência. Quanto mais as ferramentas assumem tarefas intelectuais completas, menor pode ser o esforço de quem as utiliza. E, assim como acontece com outras habilidades, aquilo que não é exercitado pode perder eficiência ao longo do tempo.


Já aconteceu antes, mas agora é diferente


Pense em algumas tecnologias que fazem parte da sua rotina. O elevador reduziu a necessidade de subir escadas. A calculadora reduziu o hábito de fazer contas mentalmente. O GPS fez com que muitas pessoas deixassem de prestar atenção aos caminhos.


A diferença é que, agora, a tecnologia não está apenas substituindo um esforço físico ou uma tarefa específica. “Pela primeira vez, uma tecnologia começa a substituir atividades relacionadas ao pensamento complexo”, observa Barros.


A inteligência artificial já consegue organizar argumentos, propor soluções, desenvolver estratégias, produzir campanhas e criar apresentações completas.


É muito prático. Mas, se a pessoa aceita tudo sem questionar, comparar ou revisar, parte do exercício intelectual deixa de acontecer.


Criatividade não é um botão que permanece ligado para sempre


Existe uma ideia bastante comum de que algumas pessoas simplesmente nascem criativas. Mas a criatividade não funciona como um talento permanente que continuará disponível mesmo sem ser usada.


Ela se desenvolve com repertório, curiosidade, memória, observação, experimentação e contato com ideias diferentes. Uma solução original raramente surge do nada. Ela costuma aparecer quando alguém combina conhecimentos acumulados, percebe uma relação inesperada ou olha para um problema sob outro ângulo.


Por isso, quando um profissional recorre automaticamente à IA para responder perguntas, estruturar argumentos e desenvolver todas as ideias, pode deixar de praticar uma parte importante desse processo.


“Diversos estudos em psicologia cognitiva mostram que o cérebro funciona como qualquer outro sistema adaptativo competências frequentemente utilizadas tendem a se fortalecer; capacidades pouco exercitadas tornam-se progressivamente menos eficientes. Em outras palavras, pensar continua sendo um exercício”, explica o pesquisador.


O estudo analisou mais de mil artigos científicos


A pesquisa partiu de um portfólio inicial de 1.004 artigos científicos publicados em diferentes países. Após a aplicação dos critérios de seleção, 101 trabalhos considerados de maior impacto foram utilizados na construção do modelo.


A tese também resultou na criação de um protótipo, o Sistema Web MACI, desenvolvido para realizar diagnósticos automatizados e recomendar intervenções aos departamentos de Recursos Humanos e às lideranças.


“Sempre que o sistema identifica um componente com nota baixa, abaixo de 3,5, ele cruza os dados com a literatura científica e recomenda intervenções precisas e personalizadas para o RH e para a liderança atuarem”, afirma Barros.


O pesquisador conta que, durante palestras realizadas em grandes empresas brasileiras, escuta com frequência relatos de falta de inovação.


Talvez essa dificuldade não esteja relacionada apenas à ausência de boas ideias. Ela também pode estar relacionada a ambientes em que falta tempo para refletir, experimentar, conversar e até errar antes de encontrar uma solução.


O risco para quem trabalha com a mente

A inteligência artificial já participa de quase todas as etapas do trabalho. Ela pode criar campanhas de marketing, elaborar documentos jurídicos, desenvolver estratégias comerciais, produzir apresentações e até ajudar a formular avaliações de desempenho.

Esses recursos aumentam a produtividade. Só que existe um risco menos visível: os profissionais podem deixar de desenvolver justamente as competências que precisarão manter em um mercado cada vez mais automatizado.


O Fórum Econômico Mundial aponta o pensamento criativo como uma das competências importantes para o futuro do trabalho. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico também destaca a aprendizagem contínua e a resolução de problemas complexos como pilares da economia baseada no conhecimento.


Em outras palavras: se as máquinas conseguem executar cada vez mais tarefas, pensar bem se torna ainda mais importante, não menos.


Como usar a IA sem deixar o cérebro de lado

Não é preciso abandonar a inteligência artificial. A proposta é usá-la como apoio, e não como substituta de todo o raciocínio.


Alguns cuidados podem ajudar:

  • tente formular sua própria opinião antes de consultar a ferramenta;

  • questione as respostas apresentadas;

  • verifique dados, referências e fontes;

  • compare diferentes interpretações;

  • não copie um argumento sem entender o que ele significa;

  • revise o conteúdo com senso crítico;

  • utilize a IA para ampliar uma ideia, não para evitar completamente o esforço de pensar.


Uma boa pergunta pode ser: “Estou usando essa resposta para desenvolver meu raciocínio ou apenas para terminar a tarefa mais rápido?”


Nem sempre haverá uma resposta simples. Mas só o fato de fazer essa pergunta já muda a forma de usar a tecnologia.


As empresas também precisam prestar atenção


A responsabilidade não pode ficar apenas com cada profissional. Se uma empresa cobra velocidade o tempo todo, mas não oferece espaço para reflexão, troca e aprendizagem, acaba por incentivar a dependência de soluções prontas.


“Cabe aos gestores criar ambientes em que a reflexão continue sendo valorizada”, afirma Barros.


Reuniões para resolver problemas em conjunto, conversas entre profissionais de áreas diferentes, programas de aprendizagem contínua e momentos dedicados à experimentação podem ajudar a manter as equipes intelectualmente ativas.


A tecnologia deve facilitar o trabalho. Mas isso não significa eliminar todas as etapas em que as pessoas pensam, discutem, discordam e constroem uma ideia coletivamente.


A vantagem continuará sendo humana


A inteligência artificial consegue processar uma enorme quantidade de informações em poucos segundos. Ainda assim, são as pessoas que precisam decidir quais problemas realmente importam, quais perguntas devem ser feitas e quais oportunidades ainda não foram percebidas.


Por isso, o chamado “brain fry” representa menos um problema da tecnologia e mais um alerta sobre a maneira como ela vem sendo utilizada. O futuro do trabalho não precisa ser uma disputa entre seres humanos e algoritmos. O desafio será encontrar o equilíbrio entre aproveitar a rapidez da inteligência artificial e não abandonar a memória, a curiosidade, o senso crítico e a capacidade de elaborar ideias próprias.


Porque, em um mundo cheio de respostas prontas, talvez a verdadeira diferença esteja em quem ainda sabe fazer boas perguntas.


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