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O que a França pode ensinar ao Brasil: cobrar o poder vale mais do que brigar por políticos

Writer: Staff
Staff
2 days ago
10 min read

A eleição acaba. Nosso direito de cobrar continua.

O que os protestos na França podem nos ensinar sobre democracia, direitos e a importância de acompanhar quem governa.


Close-up of the Brazil flag draped over a surface, showing blue, green, yellow, and the text ORDEM E PROGRESSO.

Terminamos mais uma eleição com o país dividido. Houve discussões, ofensas e relações abaladas por escolhas políticas. Em muitas conversas, parecia mais importante defender um candidato do que entender o problema que estava sendo discutido.


Mas a eleição acaba, e a vida continua. A consulta médica precisa acontecer. A escola precisa ter professores. A rua precisa de iluminação. E o dinheiro público precisa ser usado com responsabilidade.


Quem votou em Lula, quem votou em Flávio Bolsonaro e quem não se sentiu representado por nenhum deles precisa dessas mesmas coisas.


Não precisamos votar igual para cobrar juntos.


Isso não exige abandonar nossas opiniões. Podemos discordar sobre quem deveria governar e concordar que qualquer governante deve prestar contas. Ou seja: explicar o que fez, quanto gastou e quais resultados entregou. Talvez seja por aí que a conversa precise recomeçar.


O que podemos aprender com a França?


Os protestos franceses citados neste artigo reuniram pessoas insatisfeitas com o custo de vida e os serviços públicos. Houve manifestações pacíficas e também episódios de violência, saques e ataques. É importante distinguir uma coisa da outra.


Protestar pacificamente é uma maneira de tornar uma cobrança visível. Agredir pessoas e destruir patrimônio causam danos e não devem ser tratados como exemplo. O que podemos aprender está na disposição de se organizar em torno de problemas concretos. Pessoas com opiniões diferentes podem dizer juntas: “Essa decisão afeta nossa vida e queremos uma resposta”.


Não precisamos concordar com todas as reivindicações de um protesto para reconhecer o direito de fazê-las. Também não precisamos imaginar que a França resolveu seus problemas porque sua população vai às ruas.


A pergunta para o Brasil é simples: conseguimos usar nossa energia para cobrar melhorias, além de discutir sobre políticos? Isso inclui exigir candidatos mais preparados. Pedir propostas claras. Perguntar como uma promessa será paga. E continuar acompanhando depois da eleição.


Quem governa recebe uma responsabilidade


A Constituição é o conjunto de regras mais importante do país. Ela organiza o poder e protege direitos que os governantes devem respeitar.


No artigo 1º, a Constituição brasileira diz que “Todo o poder emana do povo”. A palavra “emana” significa “vem de”. Em linguagem simples: o poder de governar tem sua origem na população. Quando elegemos alguém, entregamos uma responsabilidade por um período determinado. Esse período se chama mandato.


A pessoa eleita precisa respeitar as leis, inclusive para proteger quem não votou nela.

Imagine uma escola em que os alunos escolhem um representante de turma. Ser escolhido não permite que ele faça qualquer coisa ou fale apenas pelos amigos. Ele precisa ouvir, apresentar demandas e explicar suas decisões. No governo, existem responsabilidades e regras muito mais amplas, mas a ideia de representação ajuda a entender.


Também vale separar duas palavras: Estado é a estrutura que continua existindo quando mudam os governantes: instituições, órgãos e serviços públicos. Governo é quem assume, por determinado período, a condução política e administrativa. Por isso, um serviço público pertence à população. Não é propriedade do partido que está no poder.


Por que existem três Poderes?


A Constituição divide funções para que o poder não fique todo nas mesmas mãos.


O Executivo, exercido por presidente, governadores e prefeitos em suas respectivas esferas, administra e executa políticas públicas.


O Legislativo, formado por representantes como deputados, senadores e vereadores, faz leis e fiscaliza o Executivo.


O Judiciário, formado por juízes e tribunais, resolve conflitos aplicando o direito e protege direitos dentro de suas competências.


Essa divisão não elimina os problemas, mas cria limites e possibilidades de fiscalização. Nenhum dos três recebe autorização para agir acima da Constituição.


A administração pública também deve seguir cinco princípios do artigo 37:

  • Legalidade: agir de acordo com a lei.

  • Impessoalidade: atender ao interesse público, sem favorecer amigos ou perseguir adversários.

  • Moralidade: agir com honestidade e respeito aos deveres públicos.

  • Publicidade: dar transparência aos atos, respeitando os sigilos protegidos por lei.

  • Eficiência: usar os recursos com cuidado e buscar bons resultados.


Parece distante? Pense em uma contratação pública. Ela precisa respeitar as regras, ter uma finalidade pública e permitir fiscalização. A proximidade de alguém com o governante não deveria garantir um tratamento especial.


Você pode discordar e cobrar


A Constituição protege a liberdade de expressão e o direito de reunião pacífica. O artigo 5º permite reuniões sem armas, em locais abertos ao público, sem necessidade de autorização. Prevê aviso prévio à autoridade competente e respeito a outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local.


Isso não autoriza violência. Também não significa que o cidadão precise concordar com o governo para ter seus direitos respeitados. Existem outras formas de participar. Podemos pedir informações públicas, encaminhar solicitações e acompanhar debates.


A Constituição prevê ainda mecanismos com nomes que podem parecer difíceis:

  • Plebiscito: a população é consultada antes de uma decisão.

  • Referendo: a população é consultada sobre uma decisão já tomada.

  • Iniciativa popular: cidadãos apresentam uma proposta de lei, cumprindo os requisitos previstos.


Cada mecanismo tem regras próprias. A ideia importante é que participar da democracia vai além de escolher um nome na eleição.


Como começar sem entender de política?

Comece por um problema que você conhece.

Se a rua está escura, procure o canal oficial da prefeitura e registre o endereço:

“O poste em frente ao número 150 está apagado desde o dia 10. Qual é a previsão de reparo?”

Guarde o protocolo. Ele é o número que identifica seu pedido e ajuda a acompanhar o atendimento.

Se uma obra parece parada, você pode solicitar informações ao órgão responsável:

“Gostaria de receber o cronograma atualizado, o valor contratado e os pagamentos já realizados nesta obra.”

Aqui existe uma diferença útil: pedir uma providência, como um reparo, é diferente de pedir acesso a documentos. Para informações públicas, procure o Serviço de Informação ao Cidadão. Para solicitações e reclamações, procure o atendimento ou a ouvidoria do órgão.

A ouvidoria é um canal para receber manifestações sobre a atuação do serviço público.

Se um representante prometeu ampliar as creches, escreva ao gabinete, que é a equipe de trabalho dele:

“Durante a campanha, você defendeu mais vagas em creches. Quais medidas tomou e onde podemos acompanhar o andamento?”

Você também pode participar de uma audiência pública. É uma reunião para discutir um assunto e ouvir diferentes pessoas. Quando houver participação aberta, pergunte:

“Qual é a meta para reduzir a fila e como a população poderá acompanhar o resultado?”

Se recebeu uma resposta e nada aconteceu, volte ao pedido:

“No protocolo 123, foi informado que o reparo ocorreria até esta data. O serviço ainda não foi realizado. Qual é a atualização?”

Não existe garantia de solução imediata. Mas registrar o problema e acompanhar a resposta cria um histórico que ajuda na cobrança. E isso pode ser feito em conjunto. Vizinhos que votaram em candidatos diferentes podem organizar o mesmo pedido. Uma rua iluminada atende a todos.


Como perceber quando uma notícia está aumentando a nossa raiva?

Você já abriu uma notícia e, antes de entender o que aconteceu, sentiu vontade de discutir com alguém? Vale observar essa reação.


Uma manchete pode destacar uma provocação e deixar uma proposta importante em segundo plano. Um vídeo curto pode mostrar uma frase sem o contexto. Uma discussão pode ser apresentada como se existissem apenas dois lados e nenhuma possibilidade de diálogo.


Isso ajuda a entender a palavra polarização: a divisão em campos que se afastam. Ela se torna especialmente prejudicial quando a identidade política passa a justificar hostilidade contra outras pessoas.


Mas seria injusto dizer que toda a imprensa age da mesma maneira ou que toda reportagem crítica é uma tentativa de manipulação. Jornalistas também investigam corrupção, revelam problemas e cobram explicações.


Existem diferenças entre:

  • Erro: publicar uma informação incorreta.

  • Viés editorial: dar mais destaque a determinadas perspectivas.

  • Sensacionalismo: exagerar para chamar atenção.

  • Manipulação intencional: distorcer ou esconder informações deliberadamente para influenciar alguém.


Acusar uma pessoa ou um veículo de manipulação exige provas.


Um estudo publicado na revista científica PNAS, em 2021, encontrou uma associação entre publicações sobre o grupo político adversário e mais compartilhamentos nas redes de políticos e veículos dos Estados Unidos.


Isso ajuda a entender por que o conflito pode receber tanto espaço. Não prova que toda notícia foi feita para nos dividir.


Antes de compartilhar, confira a data, leia além do título e procure a declaração completa. Faça isso também quando a notícia favorece o candidato de que você gosta.


Ter opinião firme é diferente de aceitar violência


Podemos defender uma ideia com convicção e continuar respeitando os direitos de quem discorda. O perigo aparece quando alguém passa a dizer que o outro grupo não deveria poder votar, falar, trabalhar ou participar da vida pública.


Pesquisas do V-Dem, instituto ligado à Universidade de Gotemburgo, chamam atenção para a relação entre desinformação, polarização tóxica e perda de qualidade da democracia.

Desinformação é informação falsa ou enganosa. A polarização se torna tóxica quando a hostilidade entre grupos prejudica a convivência e o respeito às regras democráticas.


Uma pergunta ajuda a examinar nossas próprias escolhas: Eu aceitaria essa mesma atitude se ela viesse do político em quem não votei? Se a resposta muda conforme o nome de quem fez, talvez estejamos protegendo uma preferência em vez de um princípio.


Vamos entender as palavras antes de usá-las


Socialismo, fascismo, comunismo e ditadura aparecem em muitas discussões. Mas não significam a mesma coisa. Algumas dessas palavras descrevem ideias sobre a economia. Outras descrevem a organização do poder. Um país pode reunir características de categorias diferentes.


Capitalismo é um sistema econômico em que predominam empresas e outros recursos produtivos de propriedade privada, com grande participação dos mercados. Uma fábrica pode pertencer a uma pessoa, uma família ou investidores. Isso pode existir junto com serviços públicos e regras de proteção aos trabalhadores.


Socialismo reúne propostas de controle social dos principais meios de produção. “Meios de produção” são recursos usados para produzir, como fábricas, terras e equipamentos. Conforme a proposta, esse controle pode envolver o Estado, cooperativas ou os próprios trabalhadores. Existem correntes democráticas e experiências autoritárias associadas ao termo. Ter hospitais públicos ou programas sociais, por si só, não torna um país socialista.


Na social-democracia contemporânea, a ideia mais comum é combinar economia de mercado com proteção social, serviços públicos e medidas para reduzir desigualdades, preservando a democracia.


O socialismo democrático busca mudanças mais profundas na propriedade e no controle da economia, mantendo liberdades e participação política.


Comunismo, na tradição marxista, tem como ideal final uma sociedade sem classes sociais e sem Estado. Esse ideal é diferente da realidade dos regimes históricos governados por partidos comunistas, muitos deles com partido único e repressão à oposição.


Fascismo é uma ideologia de extrema direita que rejeita a democracia pluralista, exalta a autoridade e promove um nacionalismo extremo. “Pluralista” significa aceitar a existência de diferentes ideias e grupos. No fascismo, pessoas apresentadas como inimigas da nação podem se tornar alvos de perseguição e violência. Ser conservador, por si só, não torna alguém fascista.


Ditadura é um regime em que a população não tem meios democráticos efetivos para controlar e substituir quem governa. A oposição e as liberdades sofrem restrições. Uma ditadura pode usar diferentes justificativas ideológicas; nem toda ditadura é fascista.

Por isso, o nome que um governo escolhe para si não basta. É preciso observar o que ele faz.


Outros termos que ajudam a entender

Não precisamos decorar todas as classificações. Este quadro serve como uma referência para compreender as notícias:

Termo

Em palavras simples

Democracia

A população pode participar, há disputa real pelo poder e direitos protegidos. A oposição pode vencer e assumir.

Autoritarismo

O poder se concentra e o espaço para oposição e fiscalização é limitado.

Totalitarismo

O regime busca controlar amplamente a vida pública e privada, impondo sua ideologia e reprimindo a autonomia.

República

A chefia do Estado não passa por herança familiar; segue regras institucionais. Isso, sozinho, não garante democracia.

Monarquia

Um monarca ocupa a chefia do Estado, geralmente por herança. Seu poder pode ser limitado por uma Constituição.

Presidencialismo

O presidente exerce as funções de chefe de Estado e chefe de governo, com mandato próprio.

Parlamentarismo

O governo depende do apoio do Parlamento. Normalmente, um primeiro-ministro conduz o governo.

Semipresidencialismo

Presidente e primeiro-ministro têm atribuições de governo, conforme as regras do país.

Federação

A Constituição divide o poder entre diferentes esferas com autonomia. No Brasil, União, estados, Distrito Federal e municípios têm competências próprias.

Estado unitário

A organização do país se concentra em uma autoridade central, embora possa haver administração local.

Oligarquia

Um grupo pequeno concentra o poder de fato.

Teocracia

A autoridade política se organiza com base em uma autoridade religiosa.

Uma monarquia pode ser democrática. Uma república pode ser ditatorial. O importante é verificar quais direitos as pessoas têm e quais limites existem para os governantes.


Quando devemos prestar mais atenção?

Alguns comportamentos merecem cuidado, especialmente quando se repetem:

  • Um líder afirma que só ele pode representar o povo.

  • Jornalistas são ameaçados por investigar o governo.

  • Órgãos de fiscalização são enfraquecidos para proteger aliados.

  • A oposição é impedida de competir de maneira real.

  • Resultados eleitorais legítimos são desrespeitados.

  • A violência política é incentivada ou tolerada.

  • Grupos da população são tratados como se não merecessem direitos.

  • A lealdade ao governante passa a valer mais do que a lei.

É preciso examinar os fatos. Criticar uma decisão judicial não é automaticamente atacar a democracia. Investigar alguém, respeitando suas garantias legais, não é automaticamente perseguição.


E cobrar todos com o mesmo critério não significa dizer que todos são iguais. As provas podem mostrar diferenças importantes entre pessoas e governos.


Podemos escolher um candidato e continuar fazendo perguntas


Antes de apoiar uma proposta, vale perguntar: qual problema ela resolve? De onde virá o dinheiro? Qual é o prazo? Como saberemos se funcionou?


Essas perguntas também valem depois da vitória. E nossa atenção precisa alcançar quem faz as leis, decide sobre o orçamento e fiscaliza. Deputados, senadores e vereadores também devem responder pelo trabalho que fazem.


Não é preciso aprender tudo de uma vez. Podemos começar acompanhando um assunto: a escola do bairro, o atendimento em saúde, uma obra ou uma proposta que afeta nossa família.


Também podemos mudar de opinião quando surgem informações melhores. Isso faz parte de pensar por conta própria. A eleição termina, mas o direito de perguntar permanece. Quem governa precisa ouvir quem votou a favor, quem votou contra e quem ainda está tentando entender.


Podemos discordar na urna e nos encontrar na cobrança por uma vida melhor. E podemos fazer isso de forma pacífica, com respeito e sem entregar a nenhum político a responsabilidade de pensar por nós.



Fontes e referências

  1. Reuters, 17 de outubro de 2026. Mass protests in France spiral into worst riots in years.

  2. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, especialmente artigos 1º, 2º, 5º, 14 e 37.

  3. Rathje, S.; Van Bavel, J. J.; van der Linden, S. Out-group animosity drives engagement on social media. PNAS, 2021. DOI: 10.1073/pnas.2024292118.

  4. V-Dem Institute, 2025. Restrictions to freedom of expression as democracy loses ground. Referência ao relatório de 2025, não a um diagnóstico em tempo real de todos os países.

  5. Gilabert, P.; O’Neill, M. Socialism. Stanford Encyclopedia of Philosophy, revisão de 2024.

  6. United States Holocaust Memorial Museum. Fascism.

  7. OpenStax. Forms of Government.

  8. OpenStax. Democracies: Parliamentary, Presidential, and Semi-Presidential Regimes.


    Artigo de opinião e educação política. Publicação: Santa Mulher.

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